O Lavrador
A terra árida foi vencida pelo lavrador. Incansavelmente ele trabalhou e a regou com seu suor. Semeou e aguardou a chuva... que não veio. Pelo contrário, um seca, fora de época e prolongada pôs a perder todo seu trabalho.
Mas ele não se deu por vencido.
Assim que a chuva caiu, ele novamente preparou a terra e tornou a semear.
Outra catástrofe. Um temporal violento caiu sobre a roça e a força da chuva revolveu a terra, expôs as sementes e elas não germinaram.
Mas ele é um caboclo, é um homem da roça, uma pessoa de fé e determinação. Por isso lançou mão da enxada e do arado e pela terceira vez preparou a terra e semeou sua lavoura e fez promessa em troca de boa colheita.
Deus foi bom!
Choveu no tempo certo. As sementes germinaram e a plantação cresceu a olhos visto.
Ele fazia a conta de quanto devia, pois, em duas semeaduras só tivera prejuízos. O farmacêutico, o dono do empório, a loja de roupas, tudo... Fez as contas de tudo! Daria para pagar a todos. Comprar roupas novas, ira a Aparecida do Norte cumprir a promessa e ainda sobraria um pouco.
Como Deus é justo e sábio, pensava. Nesse tempo de dificuldade aprendera o verdadeiro valor das coisas e se reaproximara de Deus e Este estava lhe recompensando.
Feliz, sentava-se à varanda com a mulher e ficava, nos fins de tarde ponteando a viola, admirando o esplendor do verde, agradecendo a Deus e em paz com a vida.
Um dia o céu ficou negro. Tão negro que foi necessário acender os lampiões às quatro horas da tarde.
A tempestade se armava. A mulher queimava palma de Santa Bárbara, para que Ela os protegesse do “tempo ruim”. Ele escondia os objetos de aço, para que não atraíssem raios. Os filhos, quietos, de olhos arregalados, advinhavam que a preocupação dos pais era maior que o normal e que o prognóstico era de coisa séria e forte.
Chegou à chuva. Primeiro mansa, quieta e os pingos grossos e esparsos pareciam um alerta sobre o que esta para acontecer.
De repente toda a água do céu pareceu vir abaixo. Relâmpagos, trovões e um vento violento. Agora uma tempestade muito forte de granizo misturava-se à água provocando um barulho ensurdecedor. Durou quinze minutos... Apenas quinze minutos. Quando parou, como por um passe de mágica, o céu clareou, sem, contudo reaparecer o sol e seus olhos puderam enxergar o que era lavoura. Quinze minutos antes, verde e esplendorosa! Agora totalmente dizimada. Nem uma folha nos talos, nenhum talo em pé... tudo perdido!
Adeus viagem a Aparecida. Vergonha junto aos credores. Nada de roupas novas. Tudo estava debaixo do gelo que derretida devagar.
Chorou muito abraçado à mulher. Choraram as crianças, por vê-los chorar.
Mas ele é forte. Vai recomeçar tudo de novo!
Ele sabe que não faltará apoio de todos. No interior é assim.
O dono do empório viria saber se estão precisam do de alguma coisa. O dono da farmácia vai trazer remédios e do dono da Casa da Lavoura trará sementes. Tudo para pagar após a colheita.
Deus continua lá no alto.
O sol continua a nutrir a terra e a boa chuva vai regá-la.
Ele vai continuar acreditando que desta vez haverá boa colheita e que a fartura virá.
Lembra estar melhor que seu vizinho, coitado, que não sabe como pagar o trator novo que comprou.
Pega a viola. Senta-se na varanda, enquanto a mulher prepara a janta, (sopa de mandioca com almeirão). Os filhos sentam-se ao lado e agora já sorriem por notarem que o pai está mais alegre.
No dia seguinte, quando a última estrela estiver desaparecendo no céu, ele estará se dirigindo para a roça para começar tudo de novo.
Assim é o sertanejo.
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