O SONHO
Ele estava sentado à margem da Billings havia quase uma hora. Admirava aquela imensidão de água imaginando como seria se um dia aquilo tudo acabasse. Como ficaria a população sem aquele reservatório? Lia sempre sobre o desperdício da água potável e as medidas que já estudavam para a preservação desse bem tão precioso. Percebia como a falta de cuidado e preservação havia destruído o Rio Tietê, onde ele nadava até o início da década de 60. E se acontecesse o mesmo com a Billings, com a Guarapiranga ? E se o efeito estufa destruísse as matas? Destruísse a Amazônia e o que resta da Serra do Mar?
Havia jogado a linha na água, como fazia de vez em quando, na esperança de pegar algum peixinho. Sempre se lembrava das recomendações de não comer o que pescasse, porque a água estava muito poluída e era perigoso para a saúde. Os mosquitos não davam sossego, as muriçocas atacavam por todos os lados. Às vezes ouvia o canto de algum pardal, quando muito de um tico-tico. Os pássaros tinham sumido. Lembrou-se de quando começou a pescar ali. A água não era poluída e havia pássaros de várias espécies. Ficou imaginando se um dia a água voltaria a ser boa ou ficaria cada vez pior. E os pássaros; será que voltariam? Começou a sentir uma preguiça enorme e o sono chegando. Tarde modorrenta. Peixe nenhum. Fincou o caniço no barranco, esticou-se no chão e ficou pensando como era bom quando havia peixes e a água era limpa e com esses pensamentos dormiu. Dormiu e sonhou.
O sonho retratava o início do século XXII e ele estava com 80 anos de idade. Olhava para o que outrora havia sido um grande lago que servia como reservatório de abastecimento de água para a megalópole. Hoje uma pasta gelatinosa ocupava todo o reservatório. A poluição das águas foi ocorrendo lenta e inexorável. Os programas educacionais orientando não jogar detritos no lago, pedindo que não canalizassem esgotos para dentro da represa, não tinham surtido efeito. As ocupações das margens por moradias irregulares continuaram num crescente irrefreável e os apelos, e até mesmo as desocupações feitas pelo poder público, tinham sido inúteis. As águas daquela e de todas as represas e lagos foram engrossando, engrossando, tornando-se densas e depois gelatinosas. A natureza cobrou seu preço pelo descaso dos homens e matou os lagos. Os peixes desapareceram. Primeiramente apareciam boiando mortos, aos poucos. Depois, a mortandade final. Quando esse processo começou, muitas organizações governamentais e civis correram desesperadas em busca de uma solução, mas já era tarde. As árvores das margens deram lugar a arbustos esparsos, minguados, todos retorcidos, com poucas folhas. A mata havia sido dizimada para dar lugar à construção da casa própria, que garantiria o “futuro” do cidadão. Os pássaros haviam sido extintos, não havia mais alimentos naturais para eles. Como não havia mais seus predadores naturais, os insetos proliferaram. Bilhões, trilhões, de todas as espécies, formavam nuvens e agrediam qualquer tipo de ser vivo que encontrassem pela frente.
No sonho, ele se lembrava dos tempos de estudante, quando os mestres ensinavam como e por que o ecossistema do planeta estava acabando e que tinham que preservá-lo. Aprendia como as, agora, trinta potências do mundo, lideradas pela China, jamais se preocuparam com a emissão de gases de suas indústrias. Nunca levaram a sério o fato de a camada de ozônio estar sendo destruída. Não se preocuparam com o fato de que, quando a camada de ozônio não existisse mais, os raios solares agrediriam todos os seres humanos. Que o câncer de pele seria mortal para milhões de pessoas. A Organização Mundial da Saúde e todos os grandes cientistas do globo alertaram para o fato de que, com a falta da camada de ozônio, a temperatura iria aumentar de forma insuportável e as grandes geleiras iriam derreter. Como conseqüência disso, o nível das águas dos oceanos iria elevar-se e milhares de cidades das orlas marítimas iriam desaparecer, como desapareceram. Nada foi feito: a camada de ozônio foi destruída e o resultado estava ali. Ninguém fez nada.
O nível das águas dos rios havia baixado significativamente.
A floresta amazônica tinha desaparecido. Primeiramente pelas motos-serras, que derrubaram o que encontraram pela frente em nome do “progresso”. O lema era mais pastagens, mais bois, mais soja, mais exportação, mais dólar, mais riqueza. Depois, pela quebra do ecossistema e conseqüente desequilíbrio da natureza. Com a destruição da camada de ozônio, todo o “progresso” foi destruído.
Todo agronegócio faliu, não havia o que exportar, sem dólar entrando, sem riqueza acumulada. Em seu lugar, a desertificação, a miséria, a doença e o fim da “grande marcha ao futuro”.
A agricultura que cobria o Brasil, agora representava no máximo 30% da área antiga, não porque não quisessem, pois precisavam plantar mais, mas por falta de água para tratar a lavoura. O pouco que se colhia auferia preço aviltante e apenas pequena parte da população tinha condição de comprar.
O petróleo não tinha acabado, mas não havia recursos para explorá-lo. Antes que acabasse, as ruas já estavam literalmente tomadas pelo excesso de veículos, de tal forma que não se lembrava em que ano todos tinham abandonado seus carros nas vias devido o excesso de veículos e nunca mais tiraram, mesmo porque não havia como fazê-lo e ainda que o fizessem, não havia mais combustível para movimentá-los.
Automóveis, caminhões, aviões, navios. Tudo isso fazia parte do passado. Pela falta de combustível, não havia mais nenhum tipo de transporte coletivo motorizado. Só carroças, cavalos e aqueles com melhor poder aquisitivo, uma velha bicicleta.
A falta água potável era o grande drama da humanidade. Tornara-se um objeto raríssimo e custava o olho da cara. A água ocupava o ouro de outrora e quem a tivesse guardava-a a sete chaves. Era a única coisa valiosa que interessava aos poucos ladrões, que também desapareceram por não haver o que roubar. A água, somente alguns poucos estavam em condições de comprar.
Por falta dessa mesma água, as hidrelétricas diminuíram significativamente a produção de energia e apenas hospitais recebiam eletricidade ininterrupta; o restante da população só tinha energia em rodízio a cada três dias. Naturalmente nada mais podia ser conservado em geladeira e à noite, a escuridão dominava.
Não havia mais emissoras de televisão, pois faliram as grandes marcas que sustentavam a programação através da propaganda e até mesmo o publico alvo havia desaparecido. Só algumas estações de rádio com alcance limitado continuavam funcionando, as notícias eram retransmitidas de uma para outra sem atualização.
Os rebanhos bovinos foram dizimados. A maior parte dos frigoríficos fechou. Os abatedouros de aves faliram. Tudo por falta de ração, energia, transporte e, principalmente, pela inexistência de poder de consumo da população.
Não havia mais religião alguma; o deus de nenhuma delas veio em socorro do ser humano.
Não havia mais eleições; ninguém mais queria ser político. Enganar a quem? Desviar o que?
Não havia mais escolas; tudo que havia sido ensinado não fora assimilado.
A população era formada por oitenta por cento de idosos e ninguém ousava ter um filho, para quem o futuro era absolutamente negro e brevemente finito, por falta de cuidado à criança.
Multidões vagavam do norte para o sul, do leste para o oeste. Outras, em direção contrária. Sem rumo, sem destino, olhar perdido no horizonte, na esperança de achar o que comer, o que fazer.
Havia um respeito silencioso entre todos. Ninguém falava, mas ficava tácito que, em seus silêncios, cada um queria dizer para o outro:- Você viu o que fizemos?
Ele tirou um capacete todo transparente, parecido com o de um motociclista, que o protegia do ar poluído, tomou um gole de uma pequena garrafa de água, pela qual havia pagado o equivalente a algumas horas de trabalho e chorou.
Acordou soluçando. Sentiu um alívio enorme por perceber nada era real, que tudo fora um sonho.
Notou que a linha estava retesada. Rodou a carretilha, onde relutava um peixe no anzol. Graças a Deus, pensou. A água ainda tem vida. Ainda há tempo de fazer algo para que meu sonho não se torne realidade.
Recolheu toda a tralha e voltou para casa disposto a fazer alguma coisa. Iria buscar ONGs, órgãos governamentais, partidos políticos, seus amigos, tudo. Iria procurar de todas as formas mostrar a cada um que, todos, inclusive ele, eram responsáveis pelo futuro da humanidade. Iria difundir, em cada esquina da cidade, a necessidade de preservar o planeta. Teria que fazer alguma coisa para seu bisneto poder um dia, também, pescar na Billings.
Menon-julho/2006
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