sábado, 7 de janeiro de 2012

RUA VINTE E CINCO

RUA 25 DE MARÇO

A Didi – Didi é minha esposa – emendou o feriado de 15 de novembro e como não íamos sair, convidamos uma sobrinha da Praia Grande para passar o feriadão conosco. No dia 14, segunda, a Didi perguntou, já dizendo que estava resolvido, se eu não queria dar um pulo até a Rua 25 de Março para a sobrinha conhecer.
Ponderei com ela que o noticiário do domingo à noite anunciou que havia estado um milhão de pessoas na 25 naquele dia e se não seria melhor fazer outro programa.
É lógico que não, foi a resposta dela. Se ontem foi um milhão, hoje não deve ir muita gente.
Assim, aquela pergunta com resposta marcada foi respondida: fui à 25 com as duas.
Pensa comigo: saíram um milhão de automóveis da cidade e se cada um levou três pessoas em média, três milhões de pessoas saíram a passeio e só restaram sete milhões na cidade. Desses sete milhões – estou falando só da cidade de São Paulo – quinhentos mil, por dia, vai à Zepa, apelido chique da Rua José Paulino e um milhão, por dia vai à 25. Na Zepa vai menos gente porque o comercio ali é só confecção feminina, enquanto na 25 você só não encontra o que não procura, porque se procurar acha.
Fiz uma conta rápida e projetei que a metade das pessoas, assim como eu, era apenas acompanhante, não estavam a fim de comprar nada. Só queriam marcar um ponto de reencontro num dos bares das travessas e tomar umas loiras e comer uns petiscos. Essa metade significa quinhentas mil pessoas e se elas gastaram, como eu, apenas quarenta reais, houve um movimento, pasmem, de dois milhões de reais.
Lá você tem que aprender a reandar, você só deve mudar o passo quando aquele que estiver à sua frente também mudar. Não há espaço livre no chão e no momento que você levantar o pé, alguém atrás de você vai colocar o dele no lugar onde estava o seu e se você retornar ao mesmo lugar vai pisar em alguém
Na 25 você não se cansa por andar todo seu perímetro, eis que é curto, mais ou menos seiscentos metros, você se cansa porque seu passo é de no máximo vinte centímetros. Ali, literalmente você anda pé-ante-pé e esses seiscentos metros acabam parecendo quilômetros.
De qualquer forma a Didi tinha razão, não havia um milhão de pessoas na 25, isso é exagero, devia ter no máximo, no máximo, novecentos e noventa mil, não mais que isso.
Certa feita o presidente de uma grande organização chamou ao seu escritório o diretor da agência de propaganda que o atendia e lhe disse que iria lançar um produto e queria um comercial que deixasse bem claro que aquele material era voltado para a classe C. O diretor da agência respondeu que as classes sociais são assim definidas de forma aleatória e que ninguém quer admitir que esteja na classe C e quando está, ele tenta subir o patamar. Assim, se a propaganda for dirigida, o produto não vai girar. A classe A não compra porque ele é para a classe C e esta não compra por não se considerar assim.
Contei esta historinha para dar uma idéia de como na 25 as classes sociais se misturam e disputam a dentadas os espaços, os descontos, as vagas para seus carros e um lugar para comer no mezanino do Mercadão. Ali ninguém é mais e ninguém é menos: são todos iguais. Às vezes você percebe que uma senhora é de uma classe mais abastada por conta do perfume que está usando – isso logo que ela chegar, porque uma hora depois todos têm o mesmo cheiro: humanidade – ou por conta de uma roupa de grife, mas o comportamento é o mesmo a todos: sacolas, pechinchas, empurrões – na boa – e muita alegria, ninguém fica aborrecido, porque está exatamente no lugar que queria ir e sabia que iria encontrá-lo dessa forma: abarrotado.
Uma curiosidade é a velocidade com que os camelôs se safam dos rápas e como trocam seus produtos dependendo do clima. O dia estava nublado e vendiam desde relógios à Ipod e Tablet e ao sinal do primeiro pingo de chuva, todos passaram a vender guarda chuvas, sombrinhas e capas numa rapidez assustadora. Impressionante.
A Didi e minha sobrinha voltaram com sacolas até no pescoço e fomos até o Mercado Municipal e pedimos um Baião de Dois que dá pra três e sobra.
À noite fiquei com os pés numa bacia com água quente e salgada, mas isso é só detalhe. Da próxima vez que a Didi me convidar para esses programas de índio eu juro que... vou.

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