A HERANÇA
Lá pela década de quarenta ele resolveu que no vilarejo de Trás Montes não era possível viver mais. Não tinha horizontes, nem perspectivas para o futuro. Recém casado, ficava pensando que quanto os filhos viessem, a vida deles seria exatamente como foi a sua: a mesma escola, as mesmas ruas, a mesma igreja, o mesmo rio onde todos se reuniam aos domingos à tarde, tudo igual.
Ele era o caçula de uma prole de oito de pais falecidos. Enquanto ele tinha vinte e dois anos, seu irmão mais velho já estava com quarenta e cinco.
Chamou a Maria da Fé, sua esposa, e disse que estava resolvido, iriam partir para o Brasil. Assim foi feito. Com ajuda financeira do irmão mais velho – que incentivou muito sua iniciativa – veio para o Brasil e estabeleceu-se em São Paulo. Lá ficaram seus sete irmãos e lá, Maria da Fé deixou suas irmãs Maria Esperança, Maria Caridade, seu pai José Salvador e sua mãe Maria Redentora.
Com o pouco que trouxe em dinheiro, foi se virando. Arrumou um cortiço para morar e ali começou sua luta na megalópole.
Primeiramente vendia bolinhos variados que Maria da Fé fazia em casa. Depois, um cantinho em uma mercearia onde agora fazia seu ponto e sua freguesia. Maria da Fé era boa cozinheira e em breve seus quitutes ganharam fama e clientes. O negócio cresceu e ele alugou uma portinha. Depois duas portas. Depois com espaço maior e assim foi e em cinco anos já tinha seu negócio caminhando bem e ele e Maria da Fé decidiram que era momento de ter um filho. Um ano depois nasceu Juquim Junior, assim mesmo, Juquim e era uma homenagem a seu próprio nome. Juquim Jr. tinha dois anos quando nasceu Maria da Fé, filha, que desde pequena foi apelidada de Fezinha e não é necessário descrever o quanto ela tinha que agüentar a partir da idade escolar, de todos que queriam fazer uma fezinha com ela.
A vida era só alegria e Juquim achou de se enrabichar com uma mulata de olhos verdes de virar os cornos de bonita e bem ajeitada. O rabicho virou coisa séria e da coisa séria nasceu Maria da Flor.
Um dia recebeu uma carta de Portugal informando que o irmão mais velho, justamente aquele que tanto o ajudara, estava muito mal e precisando de exames médicos para saber o que tinha e fazer o tratamento, mas como ele sabia no lugarejo não havia nada disso. Como em São Paulo tinha, perguntavam se ele não poderia receber o irmão e encaminhá-lo para consultas.
Por tudo que o irmão havia feito, ele não poderia agir de outra forma. Recebeu o irmão, acomodou-o em sua casa, levou-o ao médico e diagnosticada a doença, ele foi tratado, ficou bom e resolveu que não voltaria mais para Portugal. Ficou, dava uma polpuda quantia todos os meses e ajudava o Juquim no bar.
Esse irmão era o único bem sucedido dos oito la na terrinha. Havia se aposentado com funcionário público e durante a vida, sendo solteiro, por não ter onde e no que gastar, poupou. Assim ele estava muito bem financeiramente. Por tudo que havia recebido da parte do irmão caçula aqui em São Paulo, fez um testamento deixando tudo o que tinha para o maninho, o qual ficou riquíssimo algum tempo depois quando o irmão mais velho teve um ataque fulminante.
A Maria da Fé, que sempre pensou que o Juquim não permitia que ela pintasse o cabelo e as unhas, por economia, descobriu com o falecimento do cunhado que não era nada disso, eis que o marido agora era rico, e sim por machismo Mas ela obedecia, pois o respeito e o amor era muito grande.
A vida seguia sua marcha. Juquinha com vinte cinco anos, Fezinha com vinte e três e Maria da Flor, filha dele com a concubina, com dezoito anos. Ele o homem mais sério do planeta e Maria da Fé a maior Amélia da cidade.
Tudo ia às mil maravilhas até o dia que a mulata de olhos verdes soube de sua herança e resolveu que era chegada a hora dele cuidar melhor de Maria da Flor. Queria que ele registrasse a menina como filha - o que foi negado - e ingressou na justiça com um pedido de reconhecimento de paternidade através de um exame de DNA.
Um dia ele recebeu um Oficial de Justiça em seu bar e este lhe entregou uma intimação para comparecer perante o juiz para fazer o exame de DNA. Ele viu seu mundo desabar. Como contar para a família uma coisa dessas? Tornou-se triste e mais taciturno que antes e à medida que o tempo passava, sua pressão subia e ele sentia as palpitações desritmadas do coração e este não agüentou, pifou, parou e ele morreu.
Foi uma lamentação de cortar o coração. -Oh! Meu Deuzinho, logo agora que Juquim ficou riquinho ell vai embora.
Gastou uma grana com o enterro, só o caixão custou mais de dez mil reais. O Juquinzinho foi tomar conta do estabelecimento do pai e dali uns dias recebeu o Oficial de Justiça perguntando pelo Juquim. Ao ser esclarecido que ele havia morrido, o Oficial disse que ele não havia comparecido perante o Juiz e o motivo da intimação. Juquim Jr estatelou-se. Como? Eu tenho uma irmã? Meu pai nunca disse nada! Minha mãe vai morrer! Chegou em casa e contou para a mãe, sem rodeios. Nada de “seu gatinho subiu no telhado”. Contou tudo, de supetão. Maria quase perdeu a fé. Jurou vingança. Iria mandar tirar o caixão de dez mil do defunto, iria queimar a roupa com a qual havia sido enterrado e a rapariga – Maria da Flor - jamais iria ver um só tostão da herança do morto.
Mas não adiantou, o Juiz convocou o Juquim Jr para prova de sangue e no final, como não podia deixar de ser, ficou provado que Maria da Flor era filha de Juquim com a mulata de olhos verdes, irmã de Juquim Jr e da Fezinha e, portanto tinha direito à sua parte sim.
Juquim encantou, com sua madrasta de olhos verdes, apesar dela ser dezoito anos mais velha – ela era um pitéu mesmo – e foram morar juntos e ele acabou sendo pai de sua irmã.
Maria da Fé, já sem tanta fé, resolveu visitar suas irmãs em Portugal, coisa que não fazia desde que partira para o Brasil. Lá chegando encontrou uma das Maria sem esperança de tanto ver a outra Maria fazer caridade. Enquanto consolava a Maria sem esperança, tentava dar conselhos para a Maria caridosa. Ficou assim: ela acabou achando que a Maria Caridade estava certa, homem tem que se ter um em cada esquina e o máximo a cada dia e resolveu, também, praticar o bem e dividir o que tinha com os homens do lugar. Enquanto a outra Maria, voltou a ter esperança e concordou que as irmãs estavam certas. Se ninguém comer, a terra vai comer e com o dinheiro que a Maria da Fé tinha – e não era pouco – abriram um prostíbulo e diz-se que estão felizes, nem tanto pelo dinheiro – pois praticam o bem – mas de prazer. Isso justifica o letreiro na porta do estabelecimento: “A felicidade existe e mora aqui”.
Juquim apodreceu sob o solo. Juquim Jr é pai de dois gagitos com a mulata de olhos verdes. De tanto que tentaram fazer uma fezinha com a Maria da Fé, alguém acertou o número e levou-a embora. Maria da Flor desabrochou, encorpou, comprou uma loja num shopping, um apartamento na praia, um carro do ano e quer mais que o mundo acabe em barranco para ela morrer encostada.
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