O cara chegou de mansinho na cidadezinha do interior de Minas. Havia casado em BH com a filha de um fazendeiro ricaço e segundo as más línguas ele já havia quebrado duas empresas que ela tinha instalado para ele. Ela, muito conhecida no lugar, foi apresentando ele a todos e ele, sempre com aquele ar humilde. Percebia-se claramente que ali quem mandava era ela. Se fosse para sorrir, ele sorria. Se fosse para fazer cara feia, era com ele mesmo.
A mulher era ativa, bonita, simpática e de um verve invejável. Difícil não ser convencido por ela.
Por conta da perspicácia dela é que ele entrou na política. Estava chegando a época eleitoral e ela achou que era hora dele fazer alguma coisa na vida, devia candidatar-se a vereador. Escalou-o! Você será candidato do mesmo partido do Pedrinho. Ele será eleito prefeito e você vai na cola dele. Comprou uma Kombi, instalou aparelho de som com um alto-falante potente e já antes do período permitido, ele fazia campanha. Onde fosse o Pedrinho, ele ia também. Muita gente achava que ele é que era o candidato a prefeito.
Foi bem eleito.
Com poucos meses de administração o Pedrinho começou a sofrer pressões e a oposição aproveitava para espezinhá-lo em todas as oportunidades.
Novamente a visão política da esposa falou alto: Você vai mudar de partido e ser oposição. Primeiro porque falar mal do governo sempre rende voto e você poderá dizer: eu estive do lado de lá e sei como é. Nem precisa dizer como é, basta dizer que sabe. Segundo porque trinta por cento da população sempre será contra quem quer que seja o prefeito e se você ficar do lado que estou mandando, vai ser reeleito quantas vezes quiser. Mas lembre-se: Se seu partido ganhar a eleição para prefeito, mude novamente de partido logo no início do mandato. É assim que funciona.
Nesses anos todos nada fez pela cidade. Não apresentou um único projeto que resultasse em benesses aos munícipes. Muito de seus projetos já constam na Constituição Federal, sendo assim eles são vetados, pois já existe matéria referente e nesse momento ele reclama aos brados que é perseguido, que seus projetos são vetados porque ele é o único que tem peito de encarar o prefeito e a oposição se realiza.
Sua mulher, inteligente como é, descobriu que hoje ele domina totalmente aqueles trinta por cento que falam mal de qualquer governo. Ela somou a estes, os eleitores que de fato estão aborrecidos com a atual administração e concluiu: Nós já temos sessenta por cento dos votos. Você será candidato a prefeito na próxima eleição.
Dizem uns mineirinhos meus amigos que o movimento já começou. Ele frequenta missas em todos os bairros no domingo. Comprou uma Kombi nova e transporta os pobres para cima e pra baixo. Anda pela rua e sorri até para cego. Tudo está se encaminhando para que ele, se for candidato, vença com facilidade a eleição a prefeitura. Agora vejam a situação daquela cidadezinha. O cara nunca fez nada de útil na vida antes de ser vereador. Caiu de paraquedas. É um comerciante falido. Nunca fez nada pela cidade onde já é vereador por duas legislaturas e vai acabar sendo eleito prefeito.
Com certeza será mais um desastre praquele lugarejo. Um camarada que é dominado pela mulher, que não tem voz ativa nem pra trocar de roupa, será prefeito.
Andam dizendo que pode ser que tudo corra bem, desde que a mulher dele que manda e desmanda, tome as rédeas da administração municipal.
Escolha bem seu candidato porque você poderá ficar reclamando por, pelo menos, quatro anos.
Carta de João Menon, publicada no Jornal Debate (15/08/2010)
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